O
fato ocorreu há alguns anos atrás, mas foi original. A noite era de 31 de
dezembro, véspera de Ano Novo. O clima era de festa na pacata Lages(SC) da
época. Os bailes de fim se ano eram concorridos e o traje era a rigor. Bueno, pronto para a festa, quase meia noite, quando ia entrando no clube, me dei conta que
esqueci a carteira em casa.
Voltei
apressado, e na frente da minha residência, estava estacionada a velha Kombi ,
caindo aos pedaços, da folclórica figura do “mineiro” que sobrevivia da venda
de suas rifas, em cartões, que permitiam alimentar sua enorme família. Era um
tradicional “cliente” de carteirinha, daqueles que Nosso Senhor um dia saberia
retribuir.
Fui
recebido efusivamente pelo amigo , que
logo disse porque me procurava. Era para agradecer por tudo que eu tinha feito pela sua família
durante o ano. Iniciou elogiando muito o elegante smoking que eu trajava, inédito, nunca tinha me visto
tão bem vestido, contando como sempre
com um atendimento tão diferenciado para os filhos. Segurei minha emoção,
porque o que mais toca um profissional é
o agradecimento sincero das pessoas simples.
Com
o ego bem massageado, me preparei para entrar em casa, quando ele me interpelou
de novo: “doutor, só que agora tenho mais um problema, não quero incomodar o
senhor tão bem vestido, num dia de tanta festa, mas lá dentro do carro tenho uma filha que não tá nada bem, e
só o senhor pode resolver o problema”. Aí entendi a razão de tanto elogio e
agradecimento.
-Vamos
lá “mineiro”; abri o consultório, que ficava numa sala junto à casa e atendi a
menina que insistia em vomitar o dia todo.
Não fui melhor que
ninguém e com certeza o mais importante foi
o ato folclórico, digno de ser copiado por todos aqueles que agridem tanto os
médicos numa hora de urgência, pois uma palavra de elogio e de agradecimento
move muito mais do que as ameaças à mídia decorrentes dos
maus incidentes.





