terça-feira, 13 de maio de 2014

Informação, Comunicação e Ensino



Menos de um século após a fundação por bandeirantes paulistas, em 1776, Lages, no extremo sul da Capitania de São Paulo, já organizava os primeiros grupos teatrais amadores. A Independência do Brasil, em 1822, possibilitou a vinda de vários artistas portugueses pra Corte Brasileira e o estímulo às apresentações cívicas, artísticas e culturais.

A atual região serrana catarinense, pertencia aos limites geográficos daquela Capitania e era estratégica para o gerenciamento dos interesses da Monarquia. Os teatros foram “centros de socialização, onde convergiam trocas de informações de diversas atividades”.

Nativo da região, o lageano era uma mistura de “índio botocudo, negro e europeu”, na descrição do viajante alemão Avé-Lallemant, em 1858. Os rudes tropeiros e os mascates traziam pelos péssimos acessos, pra pequena população, produtos de consumo e mercadorias: jóias, tecidos, calçados europeus, produtos de higiene, revistas e fotografias, bem como valiosas peças teatrais.

Chegou, assim ao nosso meio, a informação da fotografia, inventada nos anos 20 do século XIX, na França, com os trabalhos de Niépce e Daguerre. Foi uma grande descoberta para o registro dos acontecimentos sociais, políticos e militares da humanidade.

A popularização desta arte, na época, deu origem às especulações sobre o “fim da pintura”, inspirando o impressionismo. D. Pedro II, em nosso país, foi considerado um dos maiores fotógrafos, devido à grande paixão pela nova arte.

A partir de 1820, Lages foi anexada ao Estado de Santa Catarina. Os lageanos utilizaram, o material trazido pelos tropeiros e mascates e após três décadas de atividades cênicas regionais, motivados pela uso da fotografia e pelas peças teatrais, edificaram em 1860, a Casa do Teatro. Possibilitaram, assim os mercadores ambulantes, o intercâmbio, de parte da população lageana mais esclarecida, com as novidades de centros maiores.

Porém, uma influência fundamental pro grupo, foi a presença naquela cidade, a partir de 1918, do escritor paulista Paulo Setubal. O autor de tantos livros da história do Império no Brasil, participou e incentivou o grupo cultural de Lages. Por recomendação médica, devido à altitude, veio pra esta cidade, a fim de recuperar-se de tuberculose. Concluiu, na ocasião, o livro Alma Cabocla.

Mas as clássicas fotos posadas, da família inteira reunida nos domingos, novidades da época, começaram a perder significado; foram substituídas pela obrigatória valorização presencial no teatro. Todavia, após 1920, começou no país, uma grande divulgação nas artes: o cinema mudo francês.

E Lages não poderia perder esta grande oportunidade artística. As projeções cinematográficas locais foram acompanhadas por música executada ao vivo pelo alemão Walter Taggsell, membro da seleta comunidade.

Era um acontecimento empolgante para os telespectadores, a sensação de viver a história do filme, executada no teclado. Imprimia nova dimensão, que dava vida às variações do cenário, embalado pela música ao vivo, ecoando no palco a sintonia de vivências humanas.

Porém nas primeiras décadas do século passado, Charles Chaplin na França, ídolo do cinema mudo, também cedeu espaço pra outra modalidade cinematográfica, a sonora. Foi mais uma qualidade artística que perdeu importância social, suplantada pela tecnologia.

O cinema, porém, na época também sofreu os mesmos ataques que hoje são direcionados à televisão. O italiano Luigi Pirandello, amante do teatro, em 1927, o denunciava como uma “falsidade da arte”.

Segundo Marshall McLuhan, autor do conceito de Aldeia Global, um novo veículo de informação e comunicação que está em crise, no momento é a TV, sempre transforma em artísticos os modelos anteriores, como aconteceu com o teatro, a fotografia e o cinema. Quando “uma forma ou gênero da cultura de massa entra em declínio, ela tende a se transformar pelas elites, em arte, pelas camadas superiores”.

Por sua vez, Horkheimer e Adorno, da Escola de Frankfurt, foram os principais pensadores acerca da “comunicação de massa” e da “indústria cultural”.  Ambos os conceitos, de acordo com estes filósofos, “não podem ser tratados como coisas distintas, pois são capazes de atingir um grande número de indivíduos, de transmitir conhecimentos ou de alienar”.

A indústria cultural planeja o consumo das massas atuando no consciente e inconsciente das pessoas. Bombardeia através do rádio, jornais, revistas e outras fontes de informação, que os dois autores chamaram de comunicação de massa.

Através das universidades, a elite leva a cultura às massas, promovendo uma culturalização. Porém, estas não assimilam através dos meios de comunicação a hierarquia dos valores, consumindo com o mesmo significado, intelectuais e seresteiros.

Todavia, também as melhores universidades paulistas caíram nas avaliações de qualidade, segundo publicação recente do Times Higher Education (THE). Qual a leitura que tais resultados podem nos trazer?  

E se as nossas mais expressivas faculdades têm esta avaliação, o que podemos esperar das interioranas? Há mais de vinte anos já éramos a oitava economia do mundo. Hoje, talvez ocupamos o sexto lugar. Como tem sido o investimento em Educação realizado desde então?

Os tigres asiáticos (Hong Kong, Taiwan, Cingapura e Coréia do Sul) investiram muito em Tecnologia e Educação nas décadas de 1980 e 1990. Baratearam custos de produção e agregaram tecnologias aos produtos. Atualmente são grandes exportadores e com ótimos níveis de desenvolvimento econômico e social.

Se o ensino atual em quase todo o mundo está em crise, pior ainda no “país do futebol”, que prefere estádios ao invés de escolas. Os meios de comunicação de massa tornaram ultrapassados os métodos tradicionais de ensino. E a elite cultural brasileira, presente nas universidades, valoriza muito os conhecimentos importados, de segunda mão.

Chegam ao ponto de recomendar que nossas universidades se limitem a transmitir conhecimentos, ao invés de se dedicarem à pesquisa. Têm o mesmo comportamento que caracterizavam, há mais de dois séculos, nossos antepassados lageanos.


Os modernos computadores e outros aparatos tecnológicos substituíram o trabalho dos mascates e tropeiros. Entretanto, os docentes das universidades continuam com atitudes semelhantes às dos ancestrais nativos da região serrana catarinense; valorizam mais a importação cultural e de ensino, repassando informações e conhecimentos já elaborados, vindos da Aldeia Global.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Mídia, Educação e Leitura



O trabalho paciencioso dos monges copistas da Idade Média seguia tranquilo, juntando pedaços de pano e pergaminhos na confecção artesanal de livros. A maior parte dos mosteiros tinha bibliotecas, onde se guardavam os manuscritos.

Copiavam à mão obras religiosas, de filosofia, medicina e autores clássicos. Demoravam anos pra confeccionar um livro. Como eram raros e muito caros, prendiam em correntes para dar maior segurança.

Porém, em meados do século XV, o mundo viveu um dos maiores acontecimentos da história. Chamou mais atenção que o próprio descobrimento da América. Em 1455, Gutenberg, na Alemanha, inventou a imprensa, usando tipos móveis e imprimindo a Bíblia Sagrada em letras góticas.

Estavam abalados, a partir de então, não só a tranqüilidade dos beneditinos, mas a velocidade da informação no mundo. Foi a mais significativa ocorrência no desenvolvimento da vida humana; para muitos cientistas, teve mais impacto que a invenção do automóvel, rádio, cinema, televisão, cinema e internet, pois sem Gutenberg nenhum deles, “quem sabe”, teriam aparecido.

Coma prensa, a informação passou a ter outro significado. No Brasil, a transmissão dos novos acontecimentos, foi bem mais lenta. Após o descobrimento, a repressão portuguesa era intensa, pela riqueza que a grande colônia representava, evitando ensaios de independência.

Enquanto México, Peru e EUA no século XVI já contavam com tipografias, a proibição no Brasil era completa. Em 1746, por exemplo, Antônio Isidoro da Fonseca, transferiu a oficina de Lisboa para o Rio de Janeiro; imprimiu dois textos bem comportados, mas uma Ordem Régia seqüestrou os bens de Isidoro e condenou a deportação pra Portugal.

Porém, em 1808, Dom João VI fugiu pro Brasil, perseguido por Napoleão. Na frota, a nau Medusa trouxe uma tipografia que Lisboa recentemente encomendara de Londres; chegaram assim, finalmente, as condições que dariam início à imprensa brasileira.

Possibilitou naquele ano a produção da Gazeta do Rio de Janeiro; no início, informava apenas ações administrativas e a vida social no Reino. Era a única imprensa permitida no país; mas depois produziu artigos nas áreas científicas, formação da Academia Militar, cursos de Engenharia e romances; foi o embrião do atual Diário Oficial brasileiro.

Infelizmente a colônia dispunha de poucos leitores, devido ao grande índice de analfabetos. As tentativas de tipografia no restante do Brasil, como na Bahia e Pernambuco foram perseguidas e abortadas.

Entretanto de Londres, Hipólito da Costa, futuro Patrono do Jornalismo do Brasil, também em 1808, lançou o Correio Braziliense-Armazém Literário; com oposição doutrinária à Dom João VI, pregava a liberdade, mas sem sangue nem guerra. Na realidade era monarquista e é discutível o papel que desempenhasse contra a escravidão; revolucionário, não no sentido bélico, mas do ponto de vista moral, cultural e social.

Hipólito nasceu na colônia portuguesa, em Sacramento, atual Uruguai, porém, com formação nos EUA, vivenciou naquele país novos conceitos de liberdade. Entretanto, só encontrou em Londres o ambiente ideal pra criticar a orientação administrativa da monarquia brasileira; o Correio Braziliense circulava, em 1808, clandestinamente em nosso meio.
 Dom Pedro I decretou, em 1821, o fim da censura prévia no país e surgiu nesta data o Diário do Rio de janeiro, considerado o primeiro jornal informativo do Brasil. Mesmo assim, Frei Caneca, em 1825, acabou fuzilado em Pernambuco por defender a liberdade de imprensa e o fim da escravidão.

Diferente dos antecessores, Dom Pedro II foi mais liberal e tolerava as publicações republicanas. Com o fim da Monarquia no país, em 1889, estava aberto o caminho pra circulação de outros periódicos.

Vivemos após, períodos de certa liberdade de imprensa, com a criação de vários jornais. Alguns, como o Estado de São Paulo e o Jornal do Brasil, no Rio de janeiro, criados no fim do século XIX, circulam até hoje.

Na década de 20 do século passado, iniciou o período áureo do Jornalismo brasileiro. Os Diários Associados de Assis Chateaubriand formaram um conglomerado inovador. Chegaram a reunir em todo o país 36 jornais, 18 revistas, 36 rádios e 18 emissoras de televisão.

Porém, entre 1934 a 1945, a censura à comunicação tornou-se férrea através do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), durante a ditadura de Getúlio Vargas. Vetou o registro de 420 jornais e de 346 revistas.

 Com o militarismo no Brasil, de 1964 a 1984, novamente os órgãos de comunicação não alinhados ao governo, sofreram também sérias represálias. A edição do Ato Institucional número 2, fez com que o “Jornalismo sério” encolhesse de modo significativo.

A imprensa brasileira, com poucas exceções, priorizou sempre os interesses das elites dos poderes políticos e econômicos na troca de favores. Os objetivos comunitários, porém, foram lembrados quando as pressões populares se tornaram quase insuportáveis.

Assim, se obrigou a ser parceira da sociedade no fim da ditadura, quando os próprios militares começaram a admitir a abertura política. A Folha de São Paulo, encampou o movimento e  publicou um editorial convocando a sociedade para o movimento Diretas Já.  

Na campanha pró Impeachment de Fernando Collor de Mello, os órgãos de comunicação que não aderissem, seriam alvo de discriminação popular. Ninguém poderia “perder a oportunidade de estar com o povo”.

Com o fim dos regimes de exceção, os periódicos nacionais buscaram, a partir de então, modernidade e entraram na fase eletrônica. O Jornal do Brasil foi o primeiro, com a inauguração em 1995 do JB Online.   

Mesmo com todas as conquistas democráticas, tecnológicas e econômicas, nosso jovem país tem patinado em Educação. A deficiência do sistema educacional brasileiro, nos ensinos fundamental e médio se reflete na preparação dos candidatos aos cursos universitários.

Há mais de 20 anos o Brasil já era oitava economia do planeta. Porém, países sem essa distinção, como a Coréia do Sul, perceberam há muito tempo que só com Educação, seriam competitivos. Hoje somos a sétima, quem sabe logo seremos a sexta potência econômica do mundo; mas em Educação, nossos níveis continuam assustadores.

O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) é hoje o principal exame para medir a qualidade da educação no mundo. Os resultados de 2009, sua última edição, mostraram o Brasil em uma situação delicada: no 53º lugar entre 65 países no Pisa.

A Coréia do Sul vive atualmente uma febre educacional. Os alunos sul-coreanos estão entre os melhores do mundo em matemática, ciência e leitura, de acordo com os resultados do Pisa. Segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 97% dos estudantes completam o ensino médio - o mais alto percentual entre todos os países pesquisados.

Para que possamos mudar nossos índices, é necessário também uma autêntica democratização nas comunicações; isto  seria possível através do acesso  a valores éticos nos meios de informação, criando condições de reflexão, análise, produção de conhecimento e desenvolvimento do nosso pensamento crítico.        

Torna-se fundamental através uma mídia democratizada, discussões de questões educacionais, ambientais, de moradia, pesquisas científicas, políticas públicas de saúde, dúvidas e esperanças sociais. Infelizmente não é o que acessamos, no cotidiano, pois o que temos atualmente é uma TV com ação social alienadora.

Herbert Blumer, da Escola de Chicago alertou para o perigo do efeito de filmes sobre as crianças e adultos jovens. Revelou que o “cinema ensina estilo de vida, penteados, o modo de beijar e até mesmo como bater carteiras”.

Blumer disse ainda que “o modo que as pessoas vêem os objetos depende do significado destas coisas para elas, e este significado ocorre como um processo de interação social”. Porém, é maligna a exposição diária da telinha alienante e invasora dos lares brasileiros.

Para Vygotsky o desenvolvimento das capacidades humanas ocorre num campo de trocas entre os mundos interno e o externo, construtores da nossa subjetividade. Seria um processo contínuo de intercâmbios transformadores, automoldáveis, resultando num subjetivo mais elaborado; ou seja em melhor conteúdo individual e de maior valor pessoal. Que sistema de trocas podemos esperar de uma mídia não democratizada e alienadora?

Agora, vamos ver alguns dados atuais sobre o Jornalismo no Brasil. Existem cerca de 120 cursos no país, formando em média 5000 profissionais por ano; mas de acordo com a organização Repórteres sem Fronteira, ocupávamos em 2012, a 99° posição no ranking de liberdade de expressão no mundo.

Mesmo sem o regime militar há cinco décadas, nosso país em 2013, foi o terceiro com maior número de mortes de profissionais de imprensa no exercício da função, com sete jornalistas assassinados naquele ano; atrás apenas da Síria, Somália e México, segundo a Campanha Emblema para a Imprensa, entidade com sede em Genebra.

Com a velocidade das publicações, hoje cada vez mais instantâneas, somada à censura de informação e mortes de jornalistas, à intensa ação alienadora da imprensa, que atitudes teriam, Gutenberg, produtor das primeiras Bíblias Sagradas impressas e os pacatos monges copistas, se deparassem com o mundo atual? Santos Dumont não suportou que os aeroplanos inventados com tanto esforço, para fins benéficos, fossem utilizados na ação destruidora da guerra. Respondeu com suicídio.

Não sendo tão pessimistas, lembramos escritores como Cervantes, que após 400 anos, que ainda é citado como otimista. Disse que, como o personagem Dom Quixote, sonhava com o que existia de mais sensato no ser humano e acreditava que isto poderia ser melhor explorado e realizado.

Igualmente, o imortal Monteiro Lobato, autor de tantos livros educativos infantis, deixou considerações sobre o futuro da raça humana; porém, desde que existissem condições de igualdade em todos os sentidos.  Numa metáfora de significado social, dizia, “quem tem força, abusa do menos favorecido e só haverá paz no mundo, quando todos os países tiverem armas iguais, ou seja, quando todos tiverem bombas atômicas”.

                 Isso só seria possível, quando todos tivermos acesso à Educação, em condições igualitárias, utilizando os recursos proporcionados por Gutenberg, na paciente construção individual pela leitura, como monges beneditinos; com a colaboração de uma mídia democratizada e não alienadora, na formação de subjetivos mais bem informados, que possam ser também transformadores da sociedade.

terça-feira, 15 de abril de 2014

TV e Cultura no Brasil




Recém descoberta, a Terra de Santa Cruz dos tupiniquins, recebia com surpresa a chegada dos brancos. A comunicação era difícil no começo, o medo ameaçava culturas opostas.  Mau cheiro dos recém chegados sem banho, misturado com a nudez ingênua dos selvagens.

Espelhos ofertados empolgavam os índios; admiravam-se com a própria imagem, antes só refletida na clareza dos rios. O contato no início foi amistoso. Não houve resistência ao invasor, cheio de presentes.

No quadro pintado pelo catarinense Vitor Meireles, da Primeira Missa do Brasil, celebrada em abril de 1500, se observa a aceitação dos indígenas; acompanhando os fatos com naturalidade, até trepados nas árvores. Usavam penas também pra cobrir os genitais, acomodando a vontade dos brancos.

Aos poucos, porém, foram alvos de interesses. Representavam mão de obra barata nas plantações e exploração do pau-brasil. Entretanto, aos jesuítas só interessava a catequese dos pagãos; conversão pra Igreja, salvação das almas, uso de “roupas decentes” e ensino da língua da Coroa Portuguesa.

Todavia, os índios não se submetiam ao trabalho escravo. Não davam valor à produtividade, ao acúmulo de riquezas. Fugiam do regime forçado.  A energia era usada pra caça, pesca e guerra com outras tribos. Mas a Igreja Católica não desistia da pregação cristã.

Nativos com “roupas” e hábitos diferentes, fugiam pra outras terras das perseguições, interessadas na mão de obra. Até bandeirantes paulistas queriam prender os selvagens. Na ânsia da conversão jesuíta, ritos e valores indígenas, pajelança, tudo passou a ser questionado. 

Iniciavam, assim, os primeiros passos da aculturação. A cultura de um povo é concebida como “acúmulo de experiências de efeito favorável”. Aculturação, porém, “produz outro molde social, através de informação, comércio e alienação”.

Alguns séculos transcorreram na acomodação dos valores, terras e interesses. Hoje, todavia, o branco também é alvo de aculturação pelos semelhantes, através dos meios de comunicação.

São utilizados o rádio, imprensa escrita e falada, publicidade, propaganda, fotografia, telefone, cinema, teatro, etc. Computadores e recursos tecnológicos cada dia mais sofisticados alargam horizontes de maneira universal.

Porém, entre os meios de informação, o maior enfoque é sem dúvida da TV. Esta, especialmente a modalidade aberta, foi a maior invasora dos lares. A TV fechada, mais restrita, devido ao custo, tem menor audiência. Da TV aberta no Brasil, era esperada destacada função cultural. O resultado, porém, foi desastroso.

Cazuza deixou gravada a canção “Brasil mostra a tua cara”. Música-manifesto, nos anos 80 da ditadura militar no país, protestou contra os escândalos políticos, desigualdades sociais e às injustiças. Conclamou, entre as estrofes, “ver TV a cores, na taba de um índio programada pra dizer sim, sim”. Acusou esse meio de comunicação e a “Aldeia Global” de servir de instrumento de manobra nas mãos do poder.

A TV não cumpriu missão democrática; pelo contrário, mais parece um anestésico social. Transformou nossa legítima cultura, em produto de cultura de massa; isso significa cópia da produção global promovida por multinacionais; fabricados em série, sem características individuais, fruto de modismo inconseqüente.

Objetos são usados na sociedade como “efeito manada”, para não destoar da maioria. É essencialmente alienadora. Por alienação se entende “destruição das culturas enraizadas e introdução de costumes estranhos”, como a cultura de massa.

A palavra alienação vem do latim alienus, que originou alheio, “o que pertence a outro”, de fora. Os filósofos, Marcuse, Sartre, Hegel e Marx conceituam como “uma atividade na qual a essência do agente é afirmada como algo externo ou alheio a ele, assumindo a forma de uma dominação hostil sobre o agente”; pessoa alienada, vive à margem da realidade e se deixa manipular facilmente. 

Por sua vez, a expressão cultura de massa, ganhou o conceito de indústria cultural, na Escola de Frankfurt, por Adorno e Horkheimer, publicado após a Segunda Guerra; significa “produto de atividade econômica universal, vinculado ao capitalismo”; oprime as demais culturas, valoriza os gostos da massa social, pronto pra consumo; é “hipnotizante, entorpecente, enfim, alienadora”.

Tentativas de preservação cultural na TV brasileira, resultaram na preferência pelo folclórico; o verdadeiro significado de folclore seriam “lendas, costumes, crenças populares expressas em cantos ou canções”; tradições coletivas, populares, com características nacionais. Como exemplo, é o bumba meu boi, o frevo e a música caipira de viola, etc..   

Mas na TV nacional, com o objetivo financeiro, o folclórico também foi deturpado. Assumiu outras características adaptadas ao gosto público; modificou-se a música caipira, por exemplo, a reproduziu misturada com trajes de cowboys americanos, com cantores que interessavam à indústria cultural.   

Os meios de informação, especialmente a televisão, na função alienadora, hoje lembram os doadores de espelhinhos, presenteados aos tupiniquins; com programas de baixo nível de educação e politização, deixam os expectadores admirados, dominados pela aculturação e aceitação da prostituída cultura de massa.

 Bem como aos nossos ancestrais, as roupas também são “orientadas”. Antes eram obrigatórias pra não exporem os genitais. Agora, na sociedade, são todas uniformes, das mesmas “marcas” clássicas, manipuladas pela indústria cultural.

Mas no maior espetáculo aberto do mundo, o Carnaval brasileiro, voltaram as penas indígenas, porém só nos cocares. Lembram os silvícolas na descoberta da Terra de Santa Cruz, retratados no quadro da Primeira Missa, pelo genial catarinense Vitor Meireles. Porém, agora, desapareceu a ingenuidade e foi reproduzida, numa nudez trabalhada; com nádegas e seios siliconados à mostra, frutos de uma cara padronização, de novos hábitos, cirúrgicos.       

Ritos e danças indígenas, africanas e brasileiras, foram substituídos pelos ritmos importados, iguais aos das baladas globais. Alvo de interesse comercial, como entre nossos antepassados tupiniquins, a língua portuguesa recebeu estrangeirismos; substitutos e enxertos, principalmente americanos e franceses. Em breve, quem sabe, teremos acréscimo em mandarim, mais difíceis de pronunciar.

Enfim, é o predomínio da aculturação, promovida pela TV brasileira, com a introdução de novos hábitos, como a “goma de mascar” americana; é só mastigar com insistência e aproveitar. Numa metáfora, também contamos com a ação televisiva da “goma de colar”, grudando nossos neurônios, impedidos de pensar e criar, mas prontos pro consumo da indústria cultural

terça-feira, 18 de março de 2014

Sentimento das Cores

Jogos de luzes, símbolos de diversos e amplos significados. Tradução de conteúdos diferenciados, isolados ou associados. Definem estados de espírito, com ou sem esperança, esbarrando na paz e harmonia, alcançando o amor e a paixão.

Podem expressar antônimos como solidão, alegria, serenidade e agressividade. Ou sentenciam a espiritualidade, erotismo, guerra, saúde e morte. Estimulam fome e rejeição, determinando também a parada obrigatória. Sugerem desde tristeza à euforia, aparência pessoal ilusória e orientação política desejada pelos governantes.

 Vamos decompor a valorização das Cores em quatro etapas sucessivas desde que foram percebidas pelo ser humano: primeiro isoladamente, em seguida nas artes da Idade Média, após em interpretações bíblicas e na última análise, nos significados daltônicos.

Diferentes lobos cerebrais são sensibilizados por apelos coloridos. Amarelo, sinalização de alerta, avança com velocidade à retina e pode dificultar a leitura. Projeção de santificada luminosidade, irradia misticismo.

Verde da serena tranquilidade, harmoniosa sintonia das cordas de violinos e dos campos da Primavera. Tingem os vegetais, antes mesmo que o homem pisasse no planeta. Chegou primeiro para garantir o bem estar, tonificando o sistema nervoso.

Perigo iminente, eufórico e agressivo, o Vermelho erotiza no bailado voluptuoso. Conquista o homem, moldando o corpo da mulher sensual. Dança erótica, atrai à luxúria feminina. Cor do sangue, luta, guerra e da pimenta exótica, alerta também à parada obrigatória. Sinal de recente ferida à mostra, ao mesmo tempo registra apelos de agressividade e sensualidade.

No polo oposto, o erotismo masculino é representado no místico Roxo/Lilás. Esotérico, com autocontrole e seguro de si, seduz a doçura e meiguice do sexo oposto. Expressa virilidade com ritmo romântico, criativo, inovador na arte e cultura.

Com embalo alegre, jovem, humorado, o Laranja traz euforia e vivacidade. Exala criatividade e ambição (significado extensivo também às conquistas humanas positivas). Tinge a beleza do pôr do Sol, retornando com viva esperança na aurora seguinte.

No ritmo tranquilo da meditação, o Azul é a Cor do equilíbrio. Sedativo, está presente nas emanações fluídicas de cura. Serena manifestação do infinito, o astronauta russo Iuri Gagarin emocionou o mundo na primeira ampla visão do espaço sideral, com o relato: “A Terra é Azul. Como é maravilhosa! Ela é incrível !”. Trouxe mais esperanças ao conturbado planeta, pois é a Cor da sintonia dos pensadores e altruístas.

Símbolo universal da paz mundial, o Branco é a soma de todas as Cores. Reúne os efeitos luminosos globais em seu conteúdo. Transmite mensagens de limpeza, higiene, porém por somatório de complexo colorido é irritante ao sistema nervoso. Nos hospitais poderia ser substituído com vantagens pelo Verde ou Azul.

Ausência de luz ou Cor, o Preto transmite nos funerais o significado final da etapa física. Usado nos trajes sóbrios, combina com quase todas os matizes. É recurso estético feminino para diminuir sinais aparentes vantajosas silhuetas.

Outros objetivos são conhecidos nas associações das Cores. Vermelho e Amarelo, juntos despertam apetite, usados sabiamente por uma empresa de Fast Food. O último, colado ao Verde no maior símbolo nacional, a bandeira, sente a falta do Amor, na Ordem e Progresso, esquecido no trio da homenagem Positivista.

Na visão seguinte, entrando na Idade Média, as Cores se associaram à religião e à educação na evolução das artes. Desde o Bizantino ao Gótico, passando pelo Românico, dos séculos V ao XV, dançaram nas mãos artísticas dos mestres da pintura, escultura e arquitetura.

O conceito de belo da natureza humana amadureceu no acompanhamento colorido. Na arte Bizantina, a influência grega, romana e oriental deixaram os registros no clero da Itália e em Constantinopla. O mosaico, maior expressão da arte daquela época, decorou paredes e abóbadas sacras; com motivos bíblicos e forte Dourado, valorizava bens espirituais e materiais (como o ouro) e o Vermelho vivo da Trindade
.
Arquitetura Bizantina foi destaque, com participação cristã e grega, em cúpulas muito elevadas como na Basílica de Santa Sofia em Constantinopla. Abóboda com alta projeção transmitiam nas Cores, sentimentos de universalidade e poder.

Na arte Românica, a tônica foi o colorido vivo dos temas bíblicos em afrescos e interior de igrejas; escultura, arquitetura religiosa e de castelos, não teriam misticismo sem tonalidades do jogo das Cores. Europa ocidental reúne esta etapa evolutiva do belo com o renascimento da escultura, mas valorizada com matizes fortes e vivos.

Catedrais Góticas, com arcos e vitrais, na França e norte da Europa, assumem com sucessivas integrações de outros países, um estilo Gótico universal. Uma amostra é a presença na América Latina, expressa há quase um século na Catedral de Lages, SC, em Neogótico. Construída com blocos de pedra arenito, uma das mais belas do modelo no Brasil, com vitrais coloridos luminosos semelhantes aos europeus.

A arquitetura Gótica fez surgir o interesse mágico das luzes, expresso no auge das vidraças de Cores com temas bíblicos.  Além dos templos do clero, o estilo se universalizou e o belo invadiu sisudas construções universitárias. O casamento dos jogos luminosos com a pintura da época, iniciou em Florença e Siena, na Itália. A noção de perspectiva e uma escultura mais natural fascinaram o mundo desde aquele período.

Numa terceira análise das Cores, a maior polêmica está nas interpretações de textos bíblicos. A beleza das tonalidades seria ofuscada pelas representatividades religiosas.  No Apocalipse, matizes dos quatro cavaleiros dão margem a inúmeras considerações. As Cores até agora concebidas como belas e mágicas, tiveram diferentes olhares humanos.

O primeiro cavaleiro se apresentou com arco, coroa e máscara. Simbolizaria, em diferentes conceitos, o Anticristo dominador, a falsa religião. O cavalo Branco, seria aqui expressão de enganosa inocência e paz disfarçada, que excede todo o entendimento.

É sucedido por segunda personagem portando espada com objetivo de guerra e destruição. Montado num cavalo Vermelho, simbolizando derrame de sangue em campos de batalhas e assassinatos. Lembraria segundo outros, luxúria, terrorismo, chacina e aborto.

Trazendo uma balança com pratos em diferentes níveis, o terceiro cavaleiro, pode sugerir má distribuição de alimentos, resultante das guerras. Para alguns seria símbolo de injustiça social ou manipulada. Este cavalo, Preto, cor da escuridão, noite sem luar ou ainda peste e maldição. Para outros expressaria capitalismo injusto, neoliberalismo e a globalização.

A cavalaria concluiu com o Verde pálido, dos cadáveres exangues, corpos em decomposição. Representaria, este quarto cavaleiro, final da guerra, chacina, resultado da ação demoníaca anterior. Interpretado por alguns como destruição de Jerusalém, para outros, as perseguições romanas. Este último representante satânico portava tridente, possível presságio de guerra mundial química ou nuclear.

Finalizando as observações, os cegos estariam livres da dantesca visão? Seriam também os daltônicos poupados da aparição tenebrosa dos cavaleiros Vermelho e Verde pálido, representativos do sangue e putrefação cadavérica? Tolerantes desde o aprendizado escolar e até diante dos nervosos sinais nos semáforos, seriam finalmente compensados no Apocalipse, vendo apenas cavalos Branco e Preto, menos fantasmagóricos... A desgraça final seria atenuada pela diminuição de pigmentos fotorreceptores.

Como a vaidade humana do daltônico aceita a alteração visual colorida do Vermelho/Verde? De que modo emoções feminina/masculina administram a privação do visual associativo? Que sentimento frustrado devem sentir pela falta de percepção do padrão, naquele vestido Vermelho colado, da mesma Cor do batom!

Qual a maneira que o daltônico valoriza a expressão artística? Feliz quem vê o real colorido e mergulha nas artes Românica, Bizantina, Gótica e na comunicação dos gênios Renascentistas: Da Vinci, Botticelli, Rafael e Michelangelo imortalizaram obras na escultura e na dança das luzes.

Todos, entretanto, independente de conceito religioso ou da concepção de jogos luminosos, podem mentalizar nossa Gaia Azulada nas ligações com a Unidade Criadora. Seria uma harmonia coletiva na higienização do planeta.   Que a maravilhosa visão de Gagarin, “A Terra é Azul”, seja sempre uma realidade, não só na dança de luzes, mas no Amor, Paz e Justiça Social

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

CIRCO DA SAÚDE PÚBLICA NO BRASIL



O doente sentiu-se pior na manhã de domingo e foi levado a um serviço de emergência. Segundo informações do paciente o atendimento era precário desde a recepção.

Enquanto procurava tranquilizá-lo, uma funcionária relatou que não seria possível verificar a pressão arterial devido ao uso da sala destinada pra este procedimento. Não havia também, condições para realizar eletrocardiograma devido à falta de luz no hospital.

Contou que não foi examinado por médicos, que estavam ausentes ou ocupados em outras atividades; referiu que faltavam materiais básicos como estetoscópio, bem como não se dispunham de pinças e agulhas; Raio-X igualmente não era disponibilizado às pessoas que recorriam àquele serviço.

Notou que todos eram recebidos de forma tranquilizadora, mas tinham a mesma assistência precária. Em uma simples comparação, desabafou que seria mais fácil descer as Cataratas da Foz do Iguaçu de bicicleta do que conseguir um atendimento com dignidade naquele ambiente.

Assistência médica seja emergencial, de internamento clínico ou cirúrgico, na América Latina, é precária em todos os ambientes desassistidos por melhores convênios. E o Brasil, maior país do continente, não foge à regra. A situação é crítica nos locais de extremos índices populacionais, pequenos ou grandes centros.

Na primeira situação, de menores concentrações humanas, se recorre à ambulancioterapia, transferindo os pacientes para cidades satélites com melhores recursos disponíveis. Nos maiores aglomerados humanos, os doentes são despejados em corredores hospitalares, aguardando vagas e morrendo na esperança de um deslocamento adequado.

Os recursos destinados às classes menos favorecidas no nosso meio, em que pese à demagogia dos governantes, patina em níveis vergonhosos de recursos à saúde. Isto se reflete nos péssimos pagamentos aos profissionais, tabelas de procedimentos, e enganosamente os maiores investimentos públicos só acontecem em períodos pré-eleitorais.

Dispõem-se de condições de primeiro mundo, nas maiores cidades do país, só em hospitais privados, com acesso fácil aos grandes empresários e especialmente aos políticos de primeiro escalão. Em compensação temos os melhores estádios de futebol do planeta; passarelas de escola de samba que nos brindam com os maiores espetáculos abertos da Terra. Pão e circo!

Na realidade, o que melhorou a saúde do povo brasileiro foi atenção dos governos nas décadas anteriores, através das campanhas contínuas de vacinações públicas; houve erradicação e controle de doenças como as próprias da infância, ao nível de primeiro mundo, como sarampo, coqueluche, difteria e poliomielite; diminuição dos casos e melhores condições de tratamento da Aids; declínio da lepra, raiva humana, tétano, rubéola congênita, doença de Chagas e febre tifoide.

Sexta economia do globo, a sociedade apela para aplicação de dez por cento dos valores do produto interno bruto da nação aos menos favorecidos. Porém a velha política romana da comida e festa ainda é predominante. Futebol, carnaval e “cartão de vale tudo” são prioridades. Mas o Brasil precisa de mais respostas na saúde pública da atualidade.

Em Junho deste ano, a população brasileira indignada foi pras ruas. O estopim era o abusivo aumento das tarifas do transporte público, mas na realidade todos os segmentos da sociedade tinham queixas. E a saúde pública precária reclamava também por melhor atenção.

Não faltaram manifestações revoltadas do povão, nos ambulatórios de grandes hospitais como o Sírio-Libanês. Queriam que a assistência digna se estendesse aos “matadouros” do SUS.

Políticos no Brasil, como sempre, prometeram providências imediatas. A resposta populista concertaria tudo com a importação de mais médicos. Afinal a culpa dos problemas, de acordo com o governo, era da falta de profissionais. Vale a comparação. Pouco importava a qualificação, quanto mais artistas no picadeiro, mais público satisfeito. Não importava se os trapézios estivessem rebentados, nem que faltassem redes de proteção ou que estas fossem estragadas.

Os mais importantes eram os palhaços, equilibristas e ilusionistas. E com entrada franca. Quanto mais, melhor, no centro do circo e na plateia. Mais profissionais sem qualificação, fazendo de conta que estão atendendo, menos queixas de atendidos que recebem receitas, pensando que já solucionaram os problemas.

E o povo agora dispondo de mais médicos importados, com cartões de cesta básica de alimentação - mesmo sem acompanhamento social decente - vai reclamar do que? Se tivesse informação adequada, quem sabe o nível de conscientização fosse outro. Porém, não há interesse em melhorar o grau de instrução; só alfabetização básica para não chocar a opinião pública mundial.

Entretanto, se algum benefício imediato acontecer com a presença de mais médicos, é ilusório e demagógico que a situação seja prontamente resolvida. A distribuição de profissionais recém-formado nas regiões carentes poderia até ter impacto positivo.

Porém ninguém parece renunciar ao conforto de grandes cidades; em presença de complicações, o trabalho isolado do médico não é suficiente. Necessita de equipe treinada e unidade bem equipada. Não há leitos disponíveis para todos internamentos.  Faltam também estruturas de transporte e hospitais referência para os casos mais complexos.

Finalizando, a atual saúde pública brasileira, ambulatório e hospitalar é um grande circo. No país emergente do BRICS, todos, atendentes e atendidos, brincam de saltimbancos, ilusionistas, malabaristas, equilibristas, trapezistas e palhaços; no picadeiro com as receitas, faltam equipamentos, remédios básicos e atendentes; salário curto e baixo nível cultural convivem com saúde precária e desassistida. Mais fácil descer as Cataratas da Foz do Iguaçu de bicicleta que receber atendimento digno nestes ambientes.       

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Hoje, Menos Fome Com Betinho, Mas Ainda Sem Saúde e Educação


Filho e cachorro com ossos à mostra, revirando lixo. Choro de fome. Peito seco, sem leite. Magreza enrugada, com olhos fundos. Miséria sem esperança...Crianças e guaipecas famintos disputando restos de comida podre. Lixão fedendo no sol quente. Disenteria solta, feito torneira estragada... Vida sem vida, lixão do Rio de Janeiro, 1990; mulheres com lenço sujo na cabeça e pés no chão. Suor, piolho e sarna disputando espaço no fedor do corpo cansado. Mundo sem bandeira, nem cores. Se existisse, seria trapo, comida pra bicho ou tapava corpo pelado...
Do outro lado do nada, tudo. Muito fácil, com restos de comida jogados no lixo quase limpo. Outro mundo, sem fome. Sobra de pão, diferente, colorido, cheiroso. Gente com roupas de todas cores, imitando flor. Mulheres com caracol de pedras no pescoço e braços. Couro de animal bem tratado e curtido feito bolsas, igual ao que cobriam os pés.
Nesta época, quase fim do século passado, poucos se preocupavam com os diferentes mundos paralelos, no mesmo Brasil. A antiga promessa de 1889 da proclamada república brasileira pra corrigir as diferenças sociais, a miséria, a fome, não tinha sido cumprida.
Prometeu-se na campanha pela República, um fim das cópias de extravagâncias europeias em Petrópolis, cujo nome homenageava o Imperador. Analfabetismo, distribuição de terra e renda seriam atendidos no novo modelo de governo que acabava com a monarquia. Fim também de condes, barões, marqueses, reverências e privilégios.
Porém, pouco mais de cem anos e tudo igual na utopia republicana. A fome se multiplicava em terras improdutivas; coronéis do açúcar e café só trocaram de nomes. Miséria continua.
Um século do novo regime se passou com promessas não cumpridas. Em 1990, uma multidão no Rio, com Betinho à frente, criava a Ação e Cidadania contra a Fome, Miséria e pela Vida. Mais um nome perdido ou mais promessas?
Traços de doença crônica estampados, Betinho ou Herbert José de Sousa, com ficha corrida contra a ditadura brasileira, andou pelo mundo no exílio; reforçou, porém, conceitos de democracia, incubando uma criação de movimentos pelos excluídos.
Embrião de esperança social contra a fome se espraiava, subia morros, descia ladeiras, corria junto a esgoto a céu aberto, alcançava a região da seca nordestina...Menos fome, mais respeito. Esperança pro filho franzino e ranhento; quem sabe, escola pro outro, desdentado...
Betinho integrou forças políticas, mas a luta pelo social deixou a grande marca. Das ideias nasceram projetos, realizações concretas. A miséria não acabou, mas diminuiu.  Encontrou solidariedade em cartões assistenciais de sucessivos governos.
Entretanto abusos populistas recentes, com modelos de assistência vale tudo em troca de votos, deturparam a inspiração de Betinho. Mesmo assim, a boa intenção criativa foi válida.
Porém, além do combate à fome, democracia e cidadania têm muito espaço a ser conquistado “nesta nova República pós 1988”. O caminho correto é a obediência aos direitos constitucionais: Saúde e Educação. Grandes nações como Coréia do Sul, Japão e Alemanha, por exemplo, encontraram há muito tempo a rota certa.

Panelas se encheram mais, barrigas também. Hoje, menos desnutrição e lixões. Valeu o trabalho de Betinho. Franzinos, ranhentos e desdentados, porém, merecem ainda mais atenção. Comida, Escola e Saúde é o trio de maior prioridade que o lema positivista de Auguste Comte, Ordem e Progresso, plantado no verde louro e no amarelo ictérico de nossa bandeira “republicana”. 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Dia da Consciência Negra


Mortos-vivos aglomerados na embarcação-presídio. Fome, sede, dor muda, o mar sepultava os abatidos pelas doenças. Obrigações severas matavam os enfraquecidos. Os mais fortes, quase cadáveres, resistiam sem queixas... Corria o ano de 1549. Os primeiros navios da vergonha chegavam ao solo brasileiro... Ondas engolindo sofrimento, submissão cega, aceitação imposta, rebeldia oprimida...
 A rica colônia seduzia o Velho Mundo. “Em se plantando nela tudo dá”, na carta de Pero Vaz de Caminha, os primeiros escritos sobre a abençoada terra descoberta. Café, cana de açúcar, algodão, frutas exóticas, pau brasil, ouro, enfim tudo à vontade.
 Mas precisava de muita gente para explorar o que pudesse e sem custos. Os índios, ah os índios! Nunca! Mesmo os dóceis, que viviam da caça e pesca insolentes, preguiçosos, jamais seria uma mão de obra fácil para tanta riqueza...
 Melhor mesmo trazer gente ignorante, sem alma; corria solto o boato que isso era confirmado pelo o Papa... Acostumados ao trabalho, quase sem custo, comprados nas feiras, valiam menos que animais; comiam o que sobrava das fartas mesas dos brancos, não precisavam de nenhuma educação...  
Porém, um grito mudo de liberdade perdido pela pobre gente, reuniu pouco a pouco, os que conseguiram fugir do holocausto colonial. Não aceitavam o cristianismo e se concentravam em locais de difícil acesso. Escondidos nas matas, selvas, morros, seus núcleos formavam aldeias, nos chamados “quilombos” em todas as regiões do Brasil. A economia era de subsistência. 
 Escapando também dos engenhos de açúcar de Pernambuco, em 1600, os negros se juntaram em Palmares - terra das palmeiras - por quase 100 anos. Quilombo dos Palmares reunia escravos fujões, brancos pobres, índios e mestiços, com vinte a trinta mil pessoas... Precisava ser aniquilado com urgência! Portugueses expulsaram com facilidade invasores holandeses do Nordeste em 1654, mas não conseguiram prender os negros fugitivos...
No meio dos rebeldes, descendente de guerreiros angolanos, em 1655, correndo nas veias a genética da resistência, nasceu seu mais expressivo representante: Zumbi – a força do espírito presente – reunia energia, coragem e inteligência de dirigente militar.
Ainda garoto foi preso por soldados em perseguição aos quilombos e entregue aos padres. Aprendeu com facilidade línguas, mas não conseguiu trair suas origens: fugiu com 15 anos de idade e voltou aos Palmares. Foi o mais poderoso líder da resistência escrava.
Coube a um bandeirante paulista, Domingos Jorge Velho, o trabalho inglório de juntar nove mil homens, armados com canhões e dominar, depois de quase cem anos, a rebeldia negra dos quilombos. Zumbi é morto em 20 de novembro de 1695, e o gemido escravo voltava com força, mas mudo faminto, sufocado, reprimido, dominado, triste...
E assim milhares de navios escravos abasteciam as prósperas fazendas brasileiras. Trabalhavam de sol a sol, comiam pouco e rendiam muito a custo zero... A colônia era  tranquila produtora de café e cana-de-açúcar para o mundo, até que de repente, Napoleão Bonaparte muda toda esta história... Põe a família Real portuguesa a correr e D. João VI, em 1808, chega fugido pra colônia com toda a nobreza a bordo.
O Brasil nunca mais seria o mesmo. Distribuição de títulos de condes, barões, duques, marqueses aos ricos produtores que se multiplicavam, enchiam os cofres da Coroa em troca de títulos nobres. Mas tudo isso exigia mais escravos, baratos, fortes, sem custo...
A chegada da família Real ao Brasil encontrava um clima de prosperidade no campo, de séculos de confortável aceitação escrava. Porém aos poucos, fervia o espírito abolicionista no mundo; a maçonaria brasileira foi a representante mais combativa da exploração negra.
Entregue aos cuidados da integridade moral do paulista José Bonifácio de Andrade e Silva, D. Pedro II atinge a maioridade física, emocional e humanista, com as sementes bem plantadas do ideal libertador. À sua filha, Princesa Isabel coube a assinatura em maio de 1888 da Lei Áurea, com a abolição total da escravatura brasileira.
Entretanto a libertação para muitos passou a ser um grande problema: analfabetos, sem nenhum trabalho, com pouca comida, sem condições de competir em nenhum mercado de trabalho. Para onde ir?
Em um recente anti-herói romanceado criou-se Macunaíma, preto retinto, filho de índio, rebelde, que representava o povo brasileiro; mergulhava a dupla preguiça estampada nas profundezas amazônicas; critica o autor, a miscigenação étnica (raças), religiosa (catolicismo, candomblé) e cultural. Em metamorfoses constantes, o índio negro vira animais e enfim se torna branco... Um culto ao racismo e à necessária eugenia brasileira...  
O preconceito da nossa história esqueceu-se de sua raiz e chegou a trocar a cor da pele de heróis negros nacionais como Aleijadinho e Machado de Assis; líderes pretos em todas as áreas foram silenciados e por muito tempo esquecidos. Somente em janeiro de 2003 foi criado oficialmente no Brasil o Dia da Consciência Negra, um resgate da cultura ofuscada.
Mas Zumbi ressurge do Quilombo dos Palmares, no Dia da Consciência Negra, revivido em 20 de novembro, quando seu corpo foi abatido. Tal qual a lenda que o imortalizaria, deixando seu código genético da herança da cor e resistência... Coube ao pintor alemão Rugendas retratar, nos desenhos a bico-de–pena, as cenas do preto oprimido no cotidiano colonial...
Dos sons abafados dos navios negreiros renascem expressões na música de Pixinguinha, Clementina de Jesus e Jamelão... Das letras proibidas do alfabeto misturam-se a hiperpigmentação da pele com a imortalidade literária de Ernesto Carneiro Ribeiro e de Machado de Assis... Das negras queixas reprimidas, ressurge a informação jornalística de Lima Barreto, Cruz e Sousa...
Dos abalos emocionais sofridos no holocausto, o psiquiatra negro Juliano Moreira interpreta a dor psíquica... Do corpo judiado, sem direito a descanso, renasce Pelé, o atleta do século... Semelhante às limitações físicas impostas aos escravos rebeldes, Aleijadinho, cor que a história esqueceu-se de registrar, modela em silêncio obras-patrimônio da Humanidade...   
Zumbi a força do espírito presente- tido pelo Quilombo de Palmares, como eterno e imortal, renasce como Fênix, não das cinzas, mas das sofridas galeras africanas, lembrado no Dia da Consciência Negra pela sua força, coragem, imortalidade e nobreza de seus descendentes.